É hora de chutar os fascistas!





Há 23 anos, em 25 de janeiro de 1995, um dos maiores jogadores de futebol da França protagonizava um dos episódios mais marcantes do futebol inglês. Eric Cantona, tetracampeão pelo Manchester United, acertava uma voadora em um torcedor do Crystal Palace. Até hoje, o maior ídolo da história dos “Red Devils” (Diabos Vermelhos), é lembrado bem mais por esse fato do que pela técnica apurada que sempre demonstrou dentro das quatro linhas.

O episódio fez com que sua fama de “bad boy” se tornasse ainda mais folclórica. A agressão foi repreendida por toda a mídia mundial, em especial os tabloides ingleses. Porém, o famoso “chute kung fu” lhe deu status de um ícone em virtude do histórico da suposta “vítima”. O torcedor que levou a voadora de Cantona é Matthew Simmons, um hooligan fascista que se tornou celebridade na Inglaterra pela participação em comícios da frente nacional da extrema-direita e pelas condenações por atos de violência, incluindo o ataque a um treinador de futebol de seu filho que teria lhe chamado de “escória nazista”.

Mas antes de chegar até a voadora de Cantona, lembremos que a partida era decisiva para o Manchester que precisava de uma vitória para tirar o título do Blackburn. Sabendo do temperamento explosivo do francês, os defensores do Crystal Palace passaram o tempo inteiro provocando e dando pontapés em Cantona. Até que em um dos lances, o camisa 7 dos “Reds” revidou e acertou um zagueiro adversário. O resultado foi o cartão vermelho e a expulsão de campo. Ao sair do gramado, Cantona passou em frente a torcida rival e após alguns xingamentos, o craque retornou e acertou o chute em Simmons. A partir daí iniciou-se uma confusão entre jogadores e torcedores.

Até hoje o teor da provocação de Simmons à Cantona é uma incógnita. Há quem diga que Simmons teria se referido a nacionalidade do ídolo da França. A confusão culminou no tropeço dos Diabos Vermelhos, que apenas empatou com o fraco Crystal Palace e o título daquele ano ficou com o Blackburn. Após o episódio, o francês foi punido com 120 horas de serviços comunitários e suspenso por oito meses dos gramados. Depois do ocorrido ele jamais voltou a ser convocado para a seleção francesa e se aposentou de maneira precoce, aos 30 anos.

Em entrevistas, Cantona costuma responder assim sobre o momento mais inesquecível de sua carreira: “Foi quando dei o chute kung fu em um hooligan, porque este tipo de gente não tem nada o que fazer em um jogo. Acredito que é um sonho para alguns dar um chute neste tipo de gente. Assim, eu fiz por eles, para que ficassem felizes. E eles falam até hoje sobre isso. Eu já vi muitos jogadores marcando gols e todos eles sabem a sensação. Mas esta, de pular e chutar um hooligan, não é algo que você encontra todos os dias.” (Trecho de entrevista à BBC de Londres).

Rebelde dentro de campo, fora dele já propôs uma “revolução contra o sistema bancário”, foi candidato a presidência da França só para chamar atenção às demandas por moradia popular e atualmente é ativista pró-refugiados.

A pergunta sobre arrependimento é corriqueira, mas o craque não hesita: “Me arrependo de não ter acertado o soco depois que derrubei ele. Tentei lhe dar um soco, mas não esmurrei com força suficiente. Deveria ter dado um soco com mais força”.

Polêmico, Cantona costuma afirmar que “nunca teve o objetivo de ser modelo para alguém”. Porém, neste momento atual de ascensão do fascismo, volta do ideário de extrema-direita e do ódio de classe aos pobres, nos miremos no exemplo, pois é hora de chutarmos o fascismo de vez.