[ sexta-feira, 06 de março de 2026 ]
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PT para que te quero

Mirian Gonçalves*

Domingo fui comprar pão tranquilamente e, sei lá de onde, surgiu um conhecido e entabulou uma conversa de como vai mal o governo. Pensei que afinal tinha se dado conta do absurdo do voto em Bolsonaro, enganei-me.

Rapidamente voltou a culpar o PT, a Dilma, o Lula, os corruptos e por aí a fora. Dessa vez disse que não estava com paciência e saí! Três anos após o impeachment continuo a ouvir desaforos e a defender o PT, mas normalmente não me queixo: fiz uma opção, como outros milhões de militantes que resistimos todos os dias, porque temos um ideal. Somos resistentes.

Sofremos muito durante o processo do mensalão com a fúria que recaiu sobre nós, mas vencemos, inclusive as eleições. Naquele momento, não foram poucos os que preferiram um afastamento asséptico. Nova grave crise veio em 2015, com protestos no Brasil contra o governo, o início do processo de impedimento da Presidenta e o avanço da Lava-jato. Na janela de “infidelidade partidária” de 18 de fevereiro a 18 de março de 2016, outros tantos políticos eleitos saíram do PT mas mantiveram seus mandatos, como previsto pela PEC.

Em Curitiba não foi diferente. Os vereadores Pedro Paulo e Jonny Stika migraram para o PDT, partido do então prefeito. Saíram para apoiar um candidato que dizia textualmente que o impeachment era inevitável e defendia que o PDT DEVIA ROMPER com Dilma, mesmo depois de ter governado contando com a sua especial deferência.

Na época escrevi um texto “PT PRA QUE TE QUERO” dedicado especialmente a todos que saíam do partido no seu momento mais difícil em busca apenas da imaginada vantagem eleitoral.

Não, não foi fácil para quem ficou, como não foi fácil andar de camisa vermelha e broche do PT pelas ruas de Curitiba, entretanto, andamos.

Não quero me ater nas dificuldades dos dois últimos anos da vice-prefeitura, mas ainda assim, tenho na memória a comemoração dos estafetas do prefeito de alguns fatos que me marcaram muito, em especial a perseguição a Lula:

– 5 de fevereiro de 2016 – passou a ser investigado por tráfico de influência;
– 4 de março de 2016 – a polícia de Moro conduz Lula coercitivamente até o aeroporto de Congonhas;
– 9 de março de 2016 – o MPF o denunciou por ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro.

Da mesma forma ficaram cravadas as homenagens da Câmara Municipal de Curitiba ao juiz Sergio Moro, concedendo-lhe o título de cidadão honorário, em 6 de abril de 2016 e, em 17 de agosto de 2016, o mesmo título ao procurador Deltan Dalagnoll, algozes do PT.  Não seria nada de espantoso não fosse o período de tramitação das homenagens convergir com o período de maior e mais dura perseguição dos homenageados a Lula e sua família. Dentre os membros da Câmara o único voto contrário veio da nossa vereadora Professora Josete!

Passados três anos, um dos quais com Lula preso, o ex-vereador Pedro Paulo, que ainda concorreu nas eleições de 2018 pelo PDT, marca data para a sua refiliação com apoio de um deputado federal e um estadual sem, contudo, qualquer discussão com as instâncias partidárias ou arremedo de retratação.

Não me parece natural, não me parece petista, mas uma forma arrogante de se colocar. Claro, sempre é possível assumir a postura de “quem tem padrinho não morre pagão”, mesmo no nosso partido, apesar disso, eu que não desisto de tentar entender o processo, faço a pergunta: o quê, companheiro, te faz pensar em voltar para o PT?

* Mirian Gonçalves é filiada ao Partido dos Trabalhadores; foi vice prefeita de Curitiba e candidata ao Senado em 2018.

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