[ sexta-feira, 06 de março de 2026 ]
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Tarso de Castro, presente!

Uma das coisas que me deixa irritado é economia de opiniões. Para que poupar algo que a fonte é infinita. Se os posicionamentos farão desafetos ou admiradores é consequência. Assim pensava o jornalista Tarso de Castro, que marcou história nas décadas de 1960 e 1970 no Brasil do AI-5, e que completaria 79 anos.

Nascido em 11 de setembro de 1941, Tarso era gaúcho de coração e carioca por vocação. Foi um dos criadores de O Pasquim, jornal que fez história ao ser concebido na égide dos anos de chumbo da ditadura milico-empresarial. É de Tarso, o DNA sarcástico e debochado do semanário.

Polêmico, brigão e subversivo, Tarso era daqueles “malditos” que fechava bares, alugava carros e aprontava em hotéis de luxo, ao melhor estilo Gonzo Jornalismo. Comprou brigas homéricas pelas redações que passou – com diretores e editores – mas nem mesmo os amigos mais próximos escapavam de seu temperamento tempestuoso.

Um “enigma” sempre foi uma pulga atrás das orelhas de seus camaradas: o charme do maldito. Mesmo desajeitado, feio, desleixado consigo e sem onde ter para cair morto, teve relacionamentos com belas mulheres. De uma dessas aventuras, uma história bem ao “estilo Tarso” em seu namoro com a atriz estadunidense Candice Bergen.

O jornalista adorava exibir a atriz uma fotografia pessoal ao lado do revolucionário argentino Che Guevara. Já a atriz, se vangloriava de ter namorado um “guerrilheiro que participou da revolução cubana”. Sim, ela caiu no “conto do malandro Tarso”. Na verdade o registro era de Tarso na condição de entrevistador quando o Che esteve em visita ao Brasil, porém a história que ele contou para a gringa foi outra.

Após 30 anos ininterruptos de consumo de álcool e sua oitava hemorragia interna, Tarso foi tomar seu scotch em outro universo. O dia: 20 de maio de 1991. Uma morte que não surpreendeu os mais próximos, pois ele mesmo pregava que “após os 40 anos a vida não teria mais graça”. Viveu nove a mais do que o limite que queria.

Seu corpo foi transladado para Passo Fundo, sua cidade natal. Lá um personagem símbolo dos anos de chumbo lhe aguardava: Romeu Tuma, então superintendente da Polícia Federal que, ao ver o caixão, disparou: “Restos mortais de um subversivo boca suja”.

Tuma tinha razão, Tarso subverteu o jornalismo. Nas palavras de Otto Lara Resende: “Tarso tinha defeitos visíveis e qualidades nem sempre visíveis, sobretudo para quem o via de longe, ou o sofria de perto”.

Tarsos fazem falta. Hoje, o “boca suja” estaria na trincheira fazendo diferença!

“Devo ter todos os defeitos possíveis, mas faço questão de exercer minhas virtudes”
Tarso de Castro

Júlio Carignano
Júlio Carignano
Jornalista, atua na imprensa desde 2002 em Cascavel e atualmente em Curitiba. É diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná (SindijorPR).
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