O fim de semana foi de retorno dos campeonatos estaduais de futebol por todo país. Os torneios regionais dividem opiniões há anos. Para alguns são competições inviáveis financeiramente e que não atraem atenção de torcedores. Outros defendem que os estaduais são tudo que restou de uma época romântica do futebol brasileiro.
Se os estaduais ainda são uma fagulha de saudosismo no futebol profissional, os campeonatos amadores são as maiores representações do chamado “futebol raiz” que se contrapõe ao “futebol moderno”. E foi com essa intenção – de recuperar a essência e a autenticidade do esporte – que foi realizada neste fim de semana no estádio Couto Pereira, em Curitiba, a primeira edição da Taça Kaiser de futebol amador.
O torneio reuniu vencedores de campeonatos amadores patrocinados pela marca em quatro estados: Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. As semifinais aconteceram no sábado (19) e a decisão no domingo (20). Na final o Atlético Itoupava, de Blumenau (SC), vencedor do Campeonato Regional da Liga Blumenauense de Futebol; enfrentou o Trieste, atual campeão da Liga Amadora da Capital Paranaense.
Ambos finalistas se classificaram após partidas vencidas nas penalidades, porém a decisão não foi nada equilibrada. Os anfitriões do Trieste, de grande tradição no futebol paranaense, entraram em campo com atletas com passagens por equipes profissionais, entre eles Rodrigo Mancha (ex-Coritiba), Lino (ex-São Paulo), Raul (ex-Atlético-PR), Hideo (ex-Paraná Clube), Jair (ex-Paranavaí) e Marcelo Soares (ex-Foz do Iguaçu), além do atacante Fernando Feijão, com passagens pela seleção brasileira de Futebol 7.
Os paranaenses comandados pelo treinador Ivo Petry foram superiores do início ao fim e atropelaram os catarinenses. Com três gols no primeiro tempo (Jair, Murilo e Marcelo Soares) e outros três na segunda etapa (Hideo, Lino e Marcelo Soares), o Trieste goleou por 6 a 0 e levantou o caneco da primeira edição da Taça Kaiser.
Atmosfera raiz

Se dentro das quatro linhas o Trieste deu show, nas arquibancadas não foi diferente e os torcedores levaram ao Couto Pereira a atmosfera do verdadeiro futebol raiz. Gente de todas as idades, crianças brincando de bola em meio a arquibancada, bandeiras, bateria e cerveja liberadas. “Isso aqui é festa. Independente de quem vença o futebol é momento de alegria e descontração”, comentou o coxa branca Marcos Roberto, que aproveitou que seu time de coração não jogava no fim de semana na capital para acompanhar a partida do futebol amador.
Uma alegria que contagiou principalmente os triestinos. “O futebol amador é tudo para mim e minha família. Quando ficamos um tempo sem jogos a gente sente muita falta”, afirmou Marcia Aparecida de Oliveira, que acompanha há mais de 20 anos a equipe criada pela colônia italiana no bairro Santa Felicidade. Junto com o marido, Marcia é a responsável pelos uniformes e chuteiras do plantel tricolor. “Sou a única mulher, entro no vestiário junto com o meu marido e com os jogadores e é sempre uma relação de muito respeito. Tenho uma ótima relação com as esposas dos jogadores também”, comentou a torcedora símbolo.
Nas arquibancadas foi possível conversar com pessoas que simbolizam a expressão de que não se trata “só de futebol”. Pedro Ferreira da Silva é um deles. Diretor do time do Mineirinho, vencedor da Copa Corujão de Belo Horizonte, ele tem 68 anos e 40 deles dedicados ao futebol amador. “Minha vida é na beira do campo. Teve uma vez que minha esposa chegou para mim e falou: você prefere eu a bola? Eu disse que preferia a bola porque eu conheci a bola antes. Foi minha primeira paixão”, brinca o homem conhecido popularmente pelo apelido de “Barulho”.

“Futebol de verdade”
A primeira edição da Taça Kaiser também teve uma atração a parte. Dadá Maravilha, artilheiro de três edições do Campeonato Brasileiro – duas pelo Atlético-MG e uma pelo Internacional – e campeão mundial pela Seleção Brasileira em 1970. Junto com Túlio e o pentacampeão Vampeta, Dadá é um das estrelas da campanha da Kaiser pela volta do “futebol de verdade”. O torneio em Curitiba foi a oportunidade de um retorno de Dadá ao Alto da Glória, uma vez que o ex-centroavante também teve passagem pelo Coxa.
Um dos jogadores mais folclóricos do futebol brasileiro, Dadá entregou o caneco aos vencedores. “Vencidos e vencedores se tornaram heróis, pois a festa foi grandiosa. Os dois times vibraram e mostraram amor à camisa, coisa que a gente não tem mais visto no futebol profissional. Precisamos resgatar o verdadeiro futebol que nos fez os melhores do mundo neste esporte”, comentou.
Para Dadá Maravilha, o atual momento do futebol profissional é ‘pobre em técnica’ e tem diminuído a identificação de torcedores com jogadores. “Fui inventor do marketing no futebol, inventei as frases, a irreverência, tudo isso para aproximar o torcedor do jogador. A gente vê muito clube hoje se afastando da alegria, se afastando do torcedor”, cutucou Dadá em tempos de ascensão do futebol moderno.

Confira abaixo mais fotos da Taça Kaiser.










































