Por Júlio Carignano com fotos de Gibran Mendes

Curitiba, domingo de carnaval. As ruas da capital paranaense amanhecem vazias. Ouço na rádio que um homem foi mordido dias atrás por um “macaco-rato” durante uma expedição numa ilha do litoral paranaense. A vítima morreu no hospital após uma infecção. Sem identificação de familiares, seu corpo é levado para o IML da cidade. Misteriosamente, na manhã seguinte, o cadáver não está mais lá.

A notícia macabra combina com o clima chuvoso e atmosfera cinzenta do feriadão na cidade. Entro em contato com o IML e confirmo que realmente o cadáver desapareceu, mas que foi visto na Boca Maldita, tradicional ponto de manifestações culturais da capital, junto com outros milhares de mortos vivos em busca de cérebros e vísceras.

11ª edição da Zombie Walk foi realizada em Curitiba neste domingo (11). Foto: Gibran Mendes

Apesar da dificuldade de locomoção e pouco senso de direção, a fome é animal e os monstros caminham até o Centro Cívico, levados por uma audição impecável que escuta o barulho de guitarras, contrabaixos e baterias que vem da região.

O que parece ser um apocalipse zumbi trata-se da 11ª edição do Zombie Walk, a marcha dos mortos vivos que reúne anualmente milhares de amantes do gênero do horror e que junto com outros eventos como Psycho Carnival e Rock Carnival, compõe o “carnaval alternativo” da cidade.

11ª edição da Zombie Walk foi realizada em Curitiba neste domingo (11). Foto: Gibran Mendes

Conhecida pela criatividade de maquiagens e fantasias, a Zombie Walk é uma tradição iniciada em 2006. Neste domingo (11) mais de 20 mil pessoas participaram. A presença das famílias e da criançada é uma marca. “Temos que vir todo ano, é exigência dela, vem até o cachorrinho junto”, diz Edson Farias, apontando para a filha Milena, de 7 anos. “Eu gosto de vir por causa das danças”, completa a garotinha vestida de noiva cadáver e que trazia o ‘Luc’, o cãozinho da família.

É inevitável que alguns se assustem tamanho o realismo das fantasias. “No começo eles se assustam, mas depois vão se acostumando quando percebem que é brincadeira”, diz Luciana Freitas, que trazia os primos Kauã e Junior, ambos de 10 anos. Para Cristiane Zampieri, que participou pela segunda vez da caminhada, “a atmosfera do terror e rock n roll é ideal para quem não curte o carnaval tradicional”.

11ª edição da Zombie Walk foi realizada em Curitiba neste domingo (11). Foto: Gibran Mendes

A diversidade das pessoas chamou a atenção do casal Adriano Lopes e Elizabete Luz. “Impressionou o número de cadeirantes que participaram neste ano”, comentou Adriano, que participou pela segunda vez da Zombie Walk. “Várias pessoas se integrando, tudo na paz. Isso é muito bacana. É liberdade total de expressão”, completou Elizabete.

Voltando a história do rapaz que foi mordido pelo macaco-rato, tudo não passava de uma brincadeira e analogia ao filme Braindead (Fome animal), de Peter Jackson. O filme, que é um clássico do gênero conhecido como “B Movie”, filmes de terror de baixo orçamento, foi dirigido muito antes do neozelandês se aventurar pela Terra Média.

O longa mostra uma expedição até a ilha de Sumatra, no continente africano, onde o líder da caravana é mordido pela criatura horrenda. Ao retornar para sua cidadezinha na Nova-Zelândia, o rapaz mordido morre de infecção, e retorna como um zumbi, espalhando o caos pela cidadezinha.

Neste domingo (11) o personagem do filme de  Peter Jackson seria apenas mais um, tantas as figuras divertidamente horripilantes que desfilaram pelo centro de Curitiba.

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