[ sexta-feira, 06 de março de 2026 ]
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Trabalho intermitente precarizou empregos no Brasil

43% dos trabalhadores com contrato intermitente receberam renda abaixo de um salário mínimo

O trabalho intermitente foi uma das modalidades de contrato aprovado na Reforma Trabalhista. O modelo visava regulamentar trabalhos temporários com jornada diferenciada. No entanto, esta modalidade de contratação tem se caracterizado como uma ferramenta para a precarização do emprego no Brasil. O “Boletim Emprego em Pauta” do DIEESE, sustentado em dados do Relatório Anual de Informações Sociais (Rais) do Ministério da Economia, apurou que em 2018, dos que trabalharam, 43%
receberam renda inferior a um salário mínimo (R$ 954). Em dezembro do mesmo ano, 40% daqueles com o modelo de contrato trabalho sequer conseguiram desempenhar atividades.

A reforma trabalhista foi aprovada com a promessa de gerar 14 milhões de novos postos de trabalho formais em até 10 anos. “É preciso pensar naqueles que estão relegados à informalidade, ao subemprego, muitas vezes por que a sua realidade de vida não se encaixa na forma rígida que é a atual CLT”, apontava o relator do projeto de lei 6787/2016, Rogério Marinho.

Tese que não se comprovou na prática, de acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE). O levantamento revela que as pessoas receberam abaixo do salário mínimo, não conseguiram emprego e não aqueceu o mercado.

“As informações relacionadas ao emprego de 2018 mostram que muitos dos contratos
passaram boa parte do ano engavetados – quer dizer, geraram pouco ou nenhum trabalho e renda e a renda gerada por esses contratos foi muito baixa”, avalia o Boletim.

Em 2018, foram computados 87 mil contratos intermitentes, dos quais 62 mil duraram pelo
menos até o final daquele ano, o que equivalia a apenas 0,13% do estoque de vínculos ativos. Estima-se um total de 138 mil contratos intermitentes em novembro de 2019, que
responderia por cerca de 0,29% do total de vínculos.

O relatório chama atenção para a paralisia no setor varejista, onde deveria ocorrer mais opção pelo trabalho intermitente. As famosas contratações de fim de ano não se transformaram em fidelização patrão/empregado. “Novembro de 2018 registrou pico de 11 mil contratações intermitentes. No entanto, 26% dos contratos celebrados no último trimestre daquele ano (de outubro a dezembro) não resultaram em trabalho efetivo em dezembro”, mostra o estudo.

À época dos debates sobre as mudanças na CLT, o relator Rogério Marinho defendia o modelo. “Esse contrato permitirá a prestação de serviços de forma descontínua, podendo alternar períodos em dia e hora, cabendo ao empregado o pagamento pelas horas efetivamente trabalhadas, observados alguns requisitos”. Ele chegou a especular que o trabalho intermitente iria ajudar no primeiro emprego e na evasão escolar.

Secretário Especial de Previdência e Trabalho, Rogério Marinho foi relator da Reforma Trabalhista. Foto: Marcos Corrêa/PR

“Além do impacto direto na geração de empregos, há que se considerar o efeito social da implantação do contrato intermitente em situações como a obtenção do primeiro emprego, especialmente para os estudantes. Como consequência, poderemos ter a redução da
evasão escolar, tema tão caro a todos nós, bem como a ampliação da renda
familiar”, diz o parecer.

A realidade, porém, é mais dura. Em novembro de 2019, apenas 0,3% dos trabalhos intermitentes conseguiram mais de um patrão. “Além disso, dos vínculos intermitentes que registraram algum trabalho em 2018, praticamente a metade (49%) gerou remuneração mensal média inferior ao salário mínimo”, calcula o DIEESE. apenas 17% dos vínculos
intermitentes geraram remunerações equivalentes a dois salários mínimos ou mais (R$ 1.908) em dezembro de 2018.

Na avaliação do DIEESE, o trabalho intermitente tem se mostrado uma modalidade de pouca utilização. Um em cada 10 vínculos desse tipo não saiu do papel. “A remuneração também teve resultado ruim, com média de R$ 763. Portanto, ao contrário dos outros tipos de vínculo, o intermitente é caracterizado pela instabilidade, já que não garante nem trabalho nem renda para os trabalhadores contratados nessa categoria”, sentencia.

 

Manoel Ramires
Manoel Ramires
Jornalista, atuou como editor no Sindicato dos Servidores Municipais de Curitiba e é colunista do Brasil de Fato do Paraná. Já publicou Vozes da Consciência (Entrevistas) e Crônicas dos Excluídos. Atua em jornalismo político.
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