[ sexta-feira, 06 de março de 2026 ]
InícioBRASILIntervenção na Petrobras ou política de Estado?

Intervenção na Petrobras ou política de Estado?

Mercado (e imprensa rentista) querem impedir que governo controle lucros e preços nas refinarias

Bolsonaro traiu o discurso de liberalidade na condução da economia. O que não é uma novidade. O panelaço veio a galope com a queda das ações da Petrobras e perda de R$ 75 bilhões em valor de mercado (na prática, nada do seu patrimônio). Diante da alta disparada dos combustíveis, o presidente interveio em nome do populismo e em desprestígio do rentismo. Mas a sua ação pode ser considerada intervencionismo ou política de Estado? Porque o dono – ou maior acionista – não pode controlar os rumos da empresa? Os preços de produtos e serviços que envolvem grande parte da população devem ser controlados ou flutuar para atender o interesse do lucro dos acionistas? Este é o debate que deve ser feito.

Por vias tortas, com a mudança da presidência da Petrobras,  Bolsonaro interrompe a política adotada pelo seu antecessor, Michel Temer, de conduzir a empresa de acordo com os interesses da Bolsa de Valores. É o que avalia o engenheiro civil e especialista em economia, Valter Fanini. Para ele, o Brasil vive uma contradição desde FHC, quando vendeu metade das ações da Petrobras na Bolsa. Em seguida, Lula equilibrou esse jogo e a ex-presidente Dilma Rousseff tentou aumentar o controle da empresa de olho no interesse público. 

“Temer mudou a política, focando no interesse dos acionistas. O resultado é que a gasolina dobrou de preço em cinco anos. O consumidor brasileiro não pode pagar um preço internacionalizado porque ele não tem o poder aquisitivo de um europeu ou norte americano. A renda aqui só tem caído. É uma contradição que tem que ser vencida. Para enfrentar esse debate, o Brasil precisa comprar ações e retomar o controle”, compara Fanini.

Para o mercado, a “não intervenção” deve ser traduzida para a população como “dependência” aos seus interesses. A autonomia na busca do lucro significa queda dos investimentos e aumento de tarifas. Ponto de vista que Otávio Licht, geólogo com mestrado e pós-doutorado UFRGS discorda frontalmente. Para ele, que é presidente do Núcleo Paraná da Sociedade Brasileira de Geologia, membro do Conselho Diretor da Sociedade Brasileira de Geoquímica, “não faz o mínimo sentido explorar uma riqueza da nação, descoberta por uma empresa pública, e que é vendida internamente com os custos internacionais e submetida à soma das flutuações diárias das cotações do barril e do dólar”.

Empresa pública a serviço do interesse privado?

Os engenheiros avaliam que a população não deve cair na “pegadinha da intervenção” rezada pelo mercado e pela mídia rentista e sim se preocupar com o interesse público. “A Petrobrás como empresa pública controlada pelo estado, é uma coisa. Infelizmente essa não existe mais, graças ao FHC e José Serra. Atualmente, como empresa de economia aberta com ações de pequenos, médios e grandes investidores, é outra situação bem diferente”, compara Licht.

Já Fanini coloca um ingrediente nessa fórmula. Ele avalia que uma empresa estatal é construída com dinheiro público para defender o interesse da população, da sociedade. Se é de interesse público, ela tem que ter ação do governo. Logo, não é intervencionismo. 

“Se ela existe para ser administrada, não faz sentido utilizar o termo intervenção. Ela é absurda em si. O estado tem que agir. Como o governo não pode intervir no que é dela? Quem tem ações da Petrobras não tem que reclamar. Ele sabe que os rumos da empresa acompanham a decisão política”, indica.

Em tese, complementa Fanini, “Bolsonaro está certo, mesmo que seja oportunista. A empresa tem que ser administrada de acordo com o interesse público. O erro está na estratégia. Por outro lado, o mercado e a mídia só veem o interesse dos acionistas, que é uma visão míope, pois isso afeta toda a economia do país, afeta o bolso da população”.

Independência só da responsabilidade social 

O que os acionistas privados não querem é que governos adotem políticas públicas em empresas que detém o monopólio de exploração ou de ações, como o caso da Sanepar e da Copel. Essas perderam valor de mercado recentemente por “intervenções” do Governo do Paraná. Na Sanepar, o reajuste da tarifa foi menor do que o previsto. Na Copel, o governo quer vender ações. Em ambos os casos, agências de empreendimentos rebaixaram as recomendações de “compra para venda”, o que fez as estatais perderem “valor de mercado”, o que não interfere em seus patrimônios brutos e líquidos.

A XP Investimentos, por exemplo,  disse durante a divulgação do relatório da Sanepar do quarto trimestre de 2020 que “a troca do reajuste foi arbitrária e autoritária por parte da Agepar, o que foi um retrocesso”.

Neste sentido, o debate é anterior ao intervencionismo. “Você não pode ter monopólio quando o objetivo é o lucro. Você está em uma situação incontornável, pois ter lucro e ter políticas públicas não casam. Ou a gente estabelece regime de mercado, tendo empresas atuando na concorrência ou se mantém o monopólio. O que não se pode ter é uma empresa pública com visão de mercado. Ela tem que ter visão de Estado”, pondera Fanini.

Manoel Ramires
Manoel Ramires
Jornalista, atuou como editor no Sindicato dos Servidores Municipais de Curitiba e é colunista do Brasil de Fato do Paraná. Já publicou Vozes da Consciência (Entrevistas) e Crônicas dos Excluídos. Atua em jornalismo político.
MAIS DO AUTOR

Leia também